Bairro Jaraguá completa 125 anos

O Jaraguá completa, neste sábado, 125 anos de história, porém, a sua história não cabe dentro de seus 125 anos.


De acordo com o senso comum, a origem desse bairro se deu no dia 1 de outubro de 1891, data em que a empresa São Paulo Railway Company Ltd. instalou na região a estação Taipas de trens (que nos anos 1940 passaria a ser chamada de estação Jaraguá), construída como parte das obras da ferrovia Santos-Jundiaí.
Essa estação de trens, por sua vez, levara esse nome porque nas suas proximidades havia algumas casas feitas com taipa, um método de construção que consiste no preenchimento de gradeados de madeira com barro amassado.

Muitas destas casas de taipa serviam como ponto de parada para tropeiros que se locomoviam do interior do estado para dentro da cidade de São Paulo conduzindo gado para um abatedouro que ficava em Pirituba.

Contudo, antes que os tropeiros pudessem colocar suas botas nesse solo, o português Afonso Sardinha (um dos mais antigos moradores da capitania de São Vicente) já havia construído, em 1580, um casarão - por meio da técnica de taipa de pilão - nos sopés do que hoje conhecemos como Pico do Jaraguá (também chamado de Senhor dos Vales) e do Pico do Papagaio.

Casarão de Afonso Sardinha, no sopé do Pico do Jaraguá
Casarão de Afonso Sardinha, no sopé do Pico do Jaraguá
No subsolo do referido casarão fora produzida uma senzala, na qual Sardinha mantinha os negros que trazia da África em cativeiro e cuja força de trabalho ele empregava na extração de ouro do Senhor dos Vales.

Mas muito antes que Sardinha ousasse cruzar o Oceano Atlântico, desembarcar no local que denominamos atualmente como Santos, subir a Serra do Mar, transpor o Planalto Paulista e chegar ao Jaraguá passando pelo lugar onde hoje é a Parada de Taipas, aqui já viviam os índios da família linguística tupi-guarani.

Para se ter uma vaga ideia do que era esse lugar nos anos pré 1.500, as recentes obras de movimentação de terra para a construção do Rodoanel Mário Covas revelaram dois sítios arqueológicos indígenas, um dos quais datado de 1.290 d.C, conforme nos dá a conhecer o trabalho "Ocupações ceramistas Tupi e Gê em São Paulo" produzido por Marisa Coutinho Afonso.

Os selvícolas que aqui viviam, por seu turno, não adentravam a área onde localiza-se o Pico do Jaraguá, pois achavam que tudo ali era sagrado. Mais do que isso, eles impediam que outros o fizessem. Nesse contexto, só havia uma forma de Sardinha entrar lá e saquear da terra o metal amarelo: passando por cima dos cadáveres dos selvícolas, o que foi exatamente o que ele fez:
"Os indígenas que ocupavam e defendiam as redondezas do 'Senhor dos vales' foram pegos de surpresa, dominados e muitos exterminados. Outros tornaram-se escravos para que Afonso Sardinha instalasse, efetivamente, a mineração de ouro a partir de 1590, sendo a primeira mineração registrada nos anais da Câmara da Vila de São Paulo de Piratininga." - fonte desconhecida em citação feita pelo historiador Wilson Alves de Castro em seu livro "Morro Jaraguá: o Senhor dos Vales".
A tomada do Pico do Jaraguá, contudo, foi apenas o primeiro passo para a dominação completa da região. Com o tempo, os europeus tomaram também as terras ao redor, criaram e cercaram fazendas, as quais mais tarde seriam loteadas e transformadas em vilas e bairros.

Floricultura Flores Casa Blanca, instalada desde 1993 na primeira casa de alvenaria do bairro Jaraguá
Floricultura Flores Casa Blanca, instalada desde 1993 na
primeira casa de alvenaria do bairro Jaraguá
Uma dessas fazendas passou de mão em mão ao longo do tempo até ser empossada pela família Azambuja, que construiu no Centro do Jaraguá, há mais ou menos um século, a primeira casa de alvenaria do bairro, a qual desde 1993 é ocupada pela floricultura Flores Casa Blanca.

Apesar de toda a profundidade dessa história, o senso comum "elege" o dia 1 de outubro de 1891 como o dia em que o bairro Jaraguá se originou e isso é perfeitamente compreensível, pois foi a partir da instalação da estação de Taipas e da ferrovia a qual ela se conecta que imigrantes passaram a se interessar em morar no local.

Todavia, antes dos imigrantes outros povos já viviam aqui e depois da chegada deles o registro oficial do Jaraguá como distrito da cidade de São Paulo só ocorreu em 1948. Dois anos mais tarde, a população do bairro era de 5.098 habitantes conforme nos dá a conhecer o gráfico a seguir (com informações coletadas do Sempla, Wikipédia e Subprefeitura):


População do Jaraguá ao longo dos anos
População do Jaraguá ao longo dos anos (clique para ampliar)
Em 2000, como se pode ver no gráfico, a quantidade de moradores do bairro já era quase 30 vezes maior do que em 1950 e, em 2012, a marca ultrapassou 200 mil habitantes, o que confere ao distrito uma população de cidade média.

Desde o ano 2003 é possível observar de cima para baixo via imagens de satélite fornecidas pelo Google Earth o crescimento do distrito. Por meio dessa tecnologia foi possível produzir o artigo "12 imagens de satélite revelam a evolução do Centro do bairro Jaraguá", com inúmeros detalhes sobre desmatamentos, construções de moradias e de itens de infraestrutura urbana. As mesmas 12 imagens comentadas no artigo podem ser vistas no vídeo a seguir:


A evolução do distrito também pode ser acompanhada por meio do projeto "Expedições fotográficas aos vilarejos do bairro Jaraguá", no qual eu tenho entrevistado moradores e fotografado cada uma das vilas, em um processo concebido em um ângulo diferente: de dentro para fora.


Entretanto, seja lá como forem feitas as observações (de cima para baixo, de dentro para fora, do presente para o passado ou do passado para o presente), é possível verificar que o bairro Jaraguá está em constante mutação e que, apesar de ele estar completando hoje 125 anos de história, a sua história é grande demais e não cabe dentro de seus 125 anos.


Sobre o Autor:
Marinaldo Gomes Pedrosa Marinaldo Gomes Pedrosa é formado em Jornalismo pela UniSant'Anna. Vive no bairro Jaraguá desde 1976.

Comentários

  1. Você citou que os imigrantes vieram para o Jaraguá depois da costrução da Estação de Taipas, meus bisavós vieram para Pirituba um pouco depois de chegarem da Hungria e depois comparam terras no Jaraguá e depois os filhos dos mesmos, entre eles meus avós também se mudaram para cá, a comunidade húngara era bem grande aqui no bairro

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    1. Olá, Cristina. Obrigado pela participação! Você não é a primeira pessoa que me fala sobre uma grande comunidade húngara por aqui. O Paulo Angelim, sobre quem você poderá ler no artigo "Ex-morador do Jaraguá diz que até os anos 1960 era possível nadar, navegar e até pescar em riachos do bairro" já me disse em uma outra oportunidade que muitos húngaros moraram próximos à Igreja Matriz, no centro do bairro, por volta das décadas de 1950, 1960 e 1970.

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  2. Eu moro perto da Igreja Matriz, meus avós e um irmão de minha avó tinham chácaras na Vila Santa Lucrecia, perto da vila Aurora, por sinal a estação da Vila Aurora foi construida onde era uma das chácaras de meus avós, onde eles moraram por muitos anos... era tudo diferente, Jaraguá cresceu muito, vieram muitas industrias também... trabalhei alguns anos na Voith...

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    1. Boa noite, Cristina! Obrigado mais uma vez pela sua contribuição. Estou investigando a história do Alambique dos irmãos Vivan, que ficava onde hoje é o Jardim Vivan, no Jaraguá. Você tem alguma foto, documento ou conhece alguém que trabalhou ou morou perto desse alambique?

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  3. Eu conheci o Sr.Milton Zacariotto, trabalhei com ele na Voith, ele era dono de umas das casas dos Vivan, mas a muito tempo...quem sabia mais sobre o Jaraguá era meu pai, mas já é falecido, ele era membro da Sociedade Amigos do Jaragua e conhecia muita gente... se quizer me escrever direto meu email é ladydiniz@gmail.com....

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