Diversidade da fauna do Parque Estadual do Jaraguá: importância deste remanescente frente aos impactos da urbanização

O texto e as fotos deste artigo são de autoria da bióloga e doutoranda em Ciências pela USP, Natasha Ceretti Maria (biografia no final do post).

As áreas naturais que resistiram ao crescimento urbano são fragmentos de vegetação que em grande parte se tornaram áreas protegidas por lei, no caso do Brasil, por meio do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (lei 9.985/00) que possibilitou a padronização das denominações e suas formas de manejo. Dentre essas áreas destacam-se os parques Nacionais, Estaduais e Municipais, locais que permitem a visitação pública. Entre os objetivos da lei destacam-se a manutenção da diversidade biológica, a proteção das espécies ameaçadas de extinção, a proteção de paisagens naturais de notável beleza cênica, a proteção e recuperação dos recursos hídricos, a promoção da educação ambiental e ecoturismo, o incentivo à pesquisa científica e a proteção dos recursos naturais necessários à sobrevivência das populações tradicionais.

 Foto clicada a partir do Pico do Jaraguá evidencia como a Unidade de Conservação "Parque Estadual do Jaraguá" está confinada devido à urbanização  Foto clicada a partir do Pico do Jaraguá evidencia como a Unidade de Conservação "Parque Estadual do Jaraguá" está confinada devido à urbanização. Foto: acervo Natasha Ceretti
Foto clicada a partir do Pico do Jaraguá evidencia como a Unidade de Conservação "Parque Estadual do Jaraguá" está confinada devido à urbanização. Foto: acervo Natasha Ceretti 
Os remanescentes são fragmentos florestais que formam agrupamentos de ilhas de biodiversidade que guardam as informações biológicas cruciais para manter o funcionamento e a restauração dos diversos ecossistemas que integram o Bioma Mata Atlântica. As florestas quanto mais enriquecidas mais condições proporcionam para a preservação e a permanência de sua fauna, pois sua destruição elimina o refúgio dos animais e as fontes naturais de sua alimentação.
Dentro da riquíssima fauna existente na Mata Atlântica, o que mais impressiona é a enorme quantidade de espécies que são endêmicas, ou seja, que não são encontradas em nenhum outro lugar do planeta. São os casos das 73 espécies de mamíferos, entre elas 21 espécies e subespécies de primatas, e 160 espécies de aves. Entre os anfíbios o número é ainda mais surpreendente, pois das 183 espécies catalogadas, 91,8% são endêmicas.

Comparada com a floresta Amazônica a Mata Atlântica apresenta maior diversidade biológica. No caso dos mamíferos, por exemplo, estão catalogadas 215 espécies na Mata Atlântica contra 353 na Amazônia, mesmo com esta última sendo 4 vezes maior do que a área original da primeira.

Apesar desta grande biodiversidade, a situação é extremamente grave porque das 202 espécies de animais consideradas oficialmente ameaçadas de extinção no Brasil, 171 são da Mata Atlântica.

Dentre as diversas áreas na cidade de São Paulo destaca-se o Parque Estadual do Jaraguá (PEJ) que é uma Unidade de Conservação localizada ao Noroeste do município de São Paulo que possui o Pico do Jaraguá como o ponto mais alto da cidade (1.135 metros de altitude).
O PEJ é uma Unidade de Conservação administrada pela Fundação do Estado de São Paulo – Fundação Florestal (FF), órgão vinculado à Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo (SMA). Ele foi declarado como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), na qualidade de Reserva da Biosfera, passando a integrar a Zona Núcleo do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo.

Fauna do PEJ

A fauna do PEJ é um subconjunto da fauna encontrada na Serra da Cantareira, onde é possível identificar diversas espécies nativas de floresta de Mata Atlântica com uma grande diversidade de animais destacando-se os seguintes grupos:

Aves

Sua avifauna é constituída por espécies de borda de floresta e espécies com ampla distribuição em áreas antropizadas. Foram identificadas 149 espécies de aves, sendo que entre as aves silvestres, 17 espécies são endêmicas. As mais comuns para serem avistadas são: tucano de bico verde, pica-pau branco, pica-pau de banda branca, pica-pau de cabeça amarela, pica-pau anão, martim pescador grande, martim pescador pequeno, martim pescador verde, garça-branca, garça moura, socó, biguá, frango d’água, biguatinga, mergulhão, saíra-sete-cores, bem-te-vi, beija-flor, periquito, João barbudo, gavião carijó e carcará.

Lago do PEJ, lar de biguás, frangos d'água e outros animais. Foto: acervo Natasha Ceretti
Lago do PEJ, lar de biguás, frangos d'água e outros animais. Foto: acervo Natasha Ceretti


Mamíferos

Destacam-se 11 espécies de mamíferos silvestres. Segundo o Plano de Manejo elaborado pelo Instituto Florestal (IF) publicado em 2010, dentre esses mamíferos apenas o gambá (Didelphis aurita) é endêmico e somente a jaguatirica (Leopardus pardali)s é considerada ameaçada de extinção, enquadrada na categoria vulnerável tanto na lista estadual quanto na nacional. O jacuguaçu Penelope obscura foi listado como quase ameaçado de extinção na lista estadual. Os mais comumente avistados são: macaco-prego, veados mateiro, jaguatirica, ratão-do-banhado, furão, quati, sagui, dentre outros.

Para os visitantes do parque o destaque é a população de macacos prego Sapajus apella e os quatis Nasua nasua que se encontram espalhados pelo parque.

Os macacos do gênero Sapajus são considerados os macacos mais inteligentes da América ocorrendo desde o noroeste da Argentina até o Norte da América do Sul. É comum observar o uso de ferramentas como pedras para a quebra de alimentos mais duros. Também são muito utilizados em experimentos de laboratório.

Macaco-prego em um dos quiosques do PEJ. Foto: acervo Natasha Ceretti
Macaco-prego em um dos quiosques do PEJ. Foto: acervo Natasha Ceretti

O nome macaco-prego vem do formato do pênis dos machos e do formato dos pelos da cabeça “topete” que lembra um prego. O topete na cabeça é mais proeminente nos machos do que nas fêmeas. Vivem em bandos com um macho dominante, que é responsável pela defesa do grupo e acasalamentos. São bastante ativos ao longo do dia podendo ser encontrados no chão e nas árvores do parque. É comum encontrar mães com seus filhotes nas costas. Sua alimentação é constituída por uma variedade de frutos, sementes, flores, néctar, pequenos vertebrados como lagartos e invertebrados como aranhas, além de ovos e filhotes de aves. Sofrem predação de felinos e serpentes.

É importante destacar que tanto os macacos-prego como os saguis-de-tufos-brancos Callithrix jacchus, outra espécie que também pode ser vista comumente, são espécies que foram introduzidas no parque que predam e competem por recursos com as espécies nativas. O impacto na predação de ovos de aves pode ser considerado alto.

Saguis-de-tufos-brancos no PEJ. Foto: acervo Natasha Ceretti
Saguis-de-tufos-brancos no PEJ. Foto: acervo Natasha Ceretti
Outro animal bastante visto é o quati Nasua nasua que é um mamífero amplamente distribuído pela América do Sul e é encontrado em todo o Brasil. A palavra “quati” é de origem indígena e significa “nariz pontudo” uma referência ao focinho comprido desses animais.

Os ninhos dos quatis são feitos nos ocos das árvores.  A fêmea dá a luz de dois a até seis filhotes. Dormem enrolados como uma bola no alto das árvores e não descem antes do amanhecer.

Quati no PEJ. Foto: acervo Natasha Ceretti
Quati no PEJ. Foto: acervo Natasha Ceretti
É importantíssimo ressaltar para os visitantes que devido à proximidade de interação com esses animais não devemos alimentá-los, pois isso desmotiva os animais a buscar seu próprio alimento, além de prejudicar sua saúde.


Répteis

O PEJ apresenta 37 espécies de répteis sendo que 5 foram introduzidas. O parque equivale a menos de 1% do município, mas 1/3 das espécies foram registradas nele indicando que o local apresenta uma alta riqueza de espécies. Dentre estas podemos citar: lagartos teiú, camaleãozinho, cágados, jabutis e serpentes como a jararaca, coral verdadeira e falsa, cobra-cipó, entre outros. Conforme o já mencionado Plano de Manejo, a super-população de cágados provavelmente está causando impactos diretos a população de anfíbios, pois se alimentam de girinos, pequenos peixes e plantas aquáticas.

Outros grupos

Além de todos os animais citados anteriormente não podemos nos esquecer que podem ser contemplados uma imensa variedade de espécies de insetos como belíssimas borboletas, sendo que uma é endêmica. Também ocorrem muitas espécies de aranhas, tais como caranguejeiras, aranha marrom, armadeira, entre outras. 

Doxocopa laurentia no mirante do Pico do Jaraguá. Foto: Natasha Ceretti
Doxocopa laurentia no mirante do Pico do Jaraguá. Foto: Natasha Ceretti
Doxocopa é um gênero que compreende cerca de 15 espécies de borboletas neotropicais que têm a cor azul ou levemente roxa.

A Doxocopa laurentia é um dos membros maiores e mais belos do grupo. Ela é encontrada em grande parte na região amazônica e andina. Quando se vê um exemplar desses geralmente são machos, pois as fêmeas passam mais tempo no alto do dossel da floresta.

Doxocopa agathina: Foto: acervo Natasha Ceretti


Desafios para a conservação do PEJ 

O PEJ ocupa uma área pequena e reduzida possuindo um histórico de degradação da vegetação natural. Devido ao processo de urbanização da cidade se encontra isolado de remanescentes florestais maiores.

Várias espécies já se extinguiram localmente e o IF aponta que o ideal seria a ampliação da área da Unidade de Conservação e a sua conexão com outros remanescentes da cidade via corredores ecológicos. É fundamental que sempre que não exista ligação entre um fragmento florestal e outro seja estabelecido um corredor entre esses fragmentos e a área seja recuperada com o plantio de espécies nativas ou através de regeneração natural.

Corredores ecológicos são áreas que unem remanescentes florestais possibilitando o livre trânsito de animais e a dispersão de sementes das espécies vegetais. Isso permite o fluxo gênico entre as espécies da fauna e da flora conservando a biodiversidade. Também garantem a conservação dos recursos hídricos e do solo, contribuem para o equilíbrio do clima e da paisagem amenizando os efeitos das Mudanças Climáticas. Os corredores podem unir Unidades de Conservação, Reservas Particulares, reservas Legais, áreas de Preservação Permanente ou quaisquer outras áreas naturais. A aplicação deste conceito é encontrada e detalhada no Código Florestal.
Devido ao PEJ estar sitiado pela área urbana e sofrer com as suas pressões, a realização dessas ações ainda encontram muitas barreiras.

Existem ainda outros impactos no parque mencionados pelo IF devido ao avanço da vizinhança com suas edificações, como depósito de lixo e entulho ao longo das divisas, oferendas de rituais religiosos, abandono de cães e gatos, atropelamentos de animais e eletrocuções de aves e mamíferos arborículas.

Por isso temos o dever de fomentar uma discussão de maneira participativa entre os vários setores da sociedade para decidir os rumos do planejamento da paisagem urbana e quais ações devem ser tomadas a fim de conter a perda de nossos fragmentos florestais restantes.

Sobre a autora:
Natasha Ceretti Maria Natasha Ceretti é mestre em Ciências (Saúde Ambiental) e doutoranda em Ciências pela FSP-USP. É bióloga pela UniSão Camilo.

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